segunda-feira, 21 de março de 2011

" As causas"

Todas as gerações e os poentes.
Os dias e nenhum foi o primeiro.
A frescura da água na garganta
De Adão. O ordenado Paraíso.
O olho decifrando a maior treva.
O amor dos lobos ao raiar da alba.
A palavra. O hexâmetro. Os espelhos.
A Torre de Babel e a soberba.
A lua que os Caldeus observaram.
As areias inúmeras do Ganges.
Chuang Tzu e a borboleta que o sonhou.
As maçãs feitas de ouro que há nas ilhas.
Os passos do errante labirinto.
O infinito linho de Penélope.
O tempo circular, o dos estóicos.
A moeda na boca de quem morre.
O peso de uma espada na balança.
Cada vã gota de água na clepsidra.
As águias e os fastos, as legiões.
Na manhã de Farsália Júlio César.
A penumbra das cruzes sobre a terra.
O xadrez e a álgebra dos Persas.
Os vestígios das longas migrações.
A conquista de reinos pela espada.
A bússola incessante. O mar aberto.
O eco do relógio na memória.
O rei que pelo gume é justiçado.
O incalculável pó que foi exércitos.
A voz do rouxinol da Dinamarca.
A escrupulosa linha do calígrafo.
O rosto do suicida visto ao espelho.
O ás do batoteiro. O ávido ouro.
As formas de uma nuvem no deserto.
Cada arabesco do caleidoscópio.
Cada remorso e também cada lágrima.
Foram precisas todas essas coisas
Para que um dia as nossas mãos se unissem.

Jorge Luis Borges, in "História da Noite"
Tradução de Fernando Pinto do Amaral


- "para que um dia as nossas mãos se unissem" e fizessem valer toda a nossa humanidade.




domingo, 20 de março de 2011

" PASSOS"


Ando
sons da existência
ando
o balançar das caravelas
ando
o tempo dos rochedos
ando
 o encontro das águas
ando
rostos que nascem em cada manhã
ando
ombros que carregam vida
ando
herois em sua lida
ando
segredos
ando os Passos
que me permitem o medo.
              CAVENATTI


_ Há 3 anos posto meus textos e os textos de autores,que admiro, no Recanto das Letras.
   Recentemente conheci os poemas desse poeta paulista e me senti atingida por um raio.
   Ele autorizou e o compartilho com vocês.

sábado, 19 de março de 2011

Prazer sem culpa


 "O século 20 levou demasiadamente a sério essas inclinações masoquistas.O gozo de ler um bom livro se tornou uma espécie de prazer culpado,atraindo alcunhas vagamente carcerárias como " escapismo" e "evacionismo".Em  meio a esse calvário de escritores e leitores experimentados na dor,Jorge Luis Borges apregoou o hedonismo da razão - para ele,entre o leitor e o texto deveria existir uma relação erótica,baseada no deleite da infinita descoberta."
-Texto de José Francisco Botelho in "A eternidade numa letra do alfabeto"- Revista Vida Simples-março de 2011 -

Confesso: sofro dessa  não-doença - o prazer de ler,sem culpa - há mais de 40 anos.E recomendo:deixe-se contaminar e se entregue às descobertas,mistérios sempre renovados.

sexta-feira, 18 de março de 2011

12 - Duplo presente


  No Natal,a irmã caçula ,que mora no Rio de Janeiro,lhe trouxe de presente um peso de papel,dizendo:"quando vi na loja pensei que não existe outra pessoa pra mim que merece ganhá-lo."Ela ficou lisonjeada e feliz.Os dizeres eram  contraditórios: " leva-se muito tempo para ser jovem."Então essa é a imagem  que a irmã fazia dela: uma jovem de sessenta anos e em constante rejuvenescimento.Em março chegou sua revista predileta com um artigo: Simplicidade.Entre todos os sábios parágrafos encontrou o autor da frase acima: Pablo Picasso,que se referia ao tempo que levou para fazer coisas simples e concluia: "à leveza da juventude atribuo a maturidade de ser descomplicado."Ela então sorriu e entendeu por que aceitara o presente com tanta leveza: há muito ela perseguia a simplicidade e a descomplicação.E se sentia cada dia mais jovem à medida que descomplicava tudo  ao seu redor.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Adélia Prado e Frida Kahlo

Com licença poética

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
-- dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

Adélia Prado

Procurando a imagem que me tocasse ,achei Frida Kahlo como as bonecas russas.Perfeito!
Frida se desdobrou e tanto ! Para  mim representa o ser mulher e ser desdobrável:força e mistério!

terça-feira, 15 de março de 2011

De dentro pra fora



             " Os olhos têm de ser educados para que nossa alegria aumente."
               - Rubem Alves  -

-Amarelo,quente.
 Risadas,de dentro.
 Alegria de viver, fora.      

segunda-feira, 14 de março de 2011

Herança


De meu pai herdei a organização ao cozinhar.Raspar restinhos da panela.Guardar coisas usadas para reutilizá-las.Amar ler...ler...ler....O prazer sempre reencontrado nas águas de uma piscina.O distanciamneto físico.A objetividade. A segurança.O silêncio.

        De minha mãe herdei a tagarelice.A elegância.A vaidade.A risada alta.A raiva.O rancor.A paixão pela Arte.A alegria em ser professora.Ler...ler..ler....A adaptalidade.O espírito de aventura.Aos filhos,asas.

        Nos meus olhos,na minha pele,nos meus cabelos, nas minhas mãos,nas minhas risadas.Nos meus medos e nas minhas raras lágrimas.Na minha rebeldia e nas minhas lutas. Na esperança que me move.

        Fora e dentro de mim,eu os procuro ,eu os acho.Sou grata!